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EU NÃO AMO FAVELA

Favela não é lugar para ninguém.

Não tem segurança, não tem saneamento, não tem porra nenhuma.

Eu quis sair mesmo, não quis ficar enterrado ali.

SEU JORGE na Rolling Stone de Maio/2015

TRÊS  JESUS


Três meninas de menor
Tomaram de assalto o ônibus
Armadas com seus bebês 
Envoltos em rotos fiapos
Coloridos de esperança

Riram e pintaram o ar
De uma alegria tosca,
Ameaçadora.

Elas e seus futuros herdeiros
De nossa miséria
Elas e seus príncipes afro-brasileiros
Cheirando a lavanda 

Mãezinhas em idade escolar
Rainhas de um lar de colchão  
No chão e teve de Lcd

O ônibus carregava
Tres  meninos Jesus
Na tarde fria de segunda feira
E ninguém percebeu.

LOUCURA ! LOUCURA !
Nem vem!
Detesto os hits ripongos:  “Balada  de Um Louco”  e “Maluco Beleza”.

DOMINGO DIVINO

Tenho simpatia por igrejas. Uma delas cá perto de casa se chama “Ser Livre”. Não vai ninguém. Fiquei tentado várias vezes a entrar  para dar uma força. Morro de  pena! Meia dúzia de frequentadores ficam lá dentro gritando por Deus enquanto ele vai tranquilamente para a outra igrejinha no outro quarteirão, na mesma calçada, sem um nome na porta. Deus não é de ferro e escutando tudo, deve passar por momentos desoladores naquela casinha de fé de meia dúzia de apóstolos. No outro estabelecimento eclesiástico reina a alegria. Cantam alto e desafinado mas é divertido. O criador, tenho certeza, passa por ali  antes da cervejinha do domingo, dá umas risadas e  deve ir comer a macarronada da mama Maria que dizem ser celestial. 

MODERNIDADES  

Pelas ultimas pesquisas efetuadas pela Cia Olho no Olho, exatamente duas pessoas se utilizaram da novíssima ciclovia da Rua Santa Cruz. É São Paulo caminhado sobre duas rodas rumo ao seu risonho futuro.

DÚVIDAS DA CERTEZA

A atendente do restaurante por quilo aqui do bairro me chama de “meu amor”  com uma propriedade  admirável. Acabo comendo mais.

CINDERELA  DA  TARDE

Mesmo sendo simpático a causa, a terceira  idade, devo dizer é cruel. Tudo desaba ...pele, ossos .. .e não há nada que se nos faça recuperar o viço que evapora com o passar do tempo ... No bailão da terceira divisão do Sesc Pompéia, onde fui trabalhar produzindo a banda  do dia, pude enxergar, mais perto do que gostaria, um pedaço de meu futuro ali presente.  Assisti uma senhorinha extremamente tatuada, envergando uma luva preta em uma única mão “a la “ Michael Jackson. Livre. Ignorando qualquer possibilidade de crítica para a decoração juvenil de sua pele. Vi um senhor negro redondinho desfrutando maravilhosamente de sua companheira, rodando com sua princesa pelo salão na maior elegância. Um outro senhor, solitário em uma mesa, mal encarado assistia a tudo de máquina de foto e guarda-chuva   na mão. Três rapazes e uma moçoila, especialmente contratados,  ajudavam a desinibir alguns e dava certo. Mas o acontecimento da tarde, no entanto foi uma senhorinha toda vestida de amarelo. Repito: toda vestida de amarelo. Ela dançava sozinha, alegre, esbanjando verve, tendo como par uma bonequinha preta. Me  pareceu mais solidão que diversão mas seu sorriso era tão alto que guardo o benefício da  dúvida. Como surgiu, a Cinderela de amarelo e sua bonequinha, desapareceram.

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