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LUZIA



Luzia me chamava de maninho e me deu uma foto 3 por 4 com dedicatória. Tínhamos a mesma cor de pele, que nossas certidões de nascimento diziam  parda. Linda cor de nome infame. Luzia namorava o Pepe, um brancão alto, de voz mansa, calmo, com pinta de gente boa. Um cara legal.Um casal maneiro do ginásio, discreto e sorridente. Separaram. Discretamente. Luzia sumiu. Desapareceu. Pepe perambulou pelo pátio do ginásio durante um tempo feito um zumbi e  depois igualmente desapareceu  no meio do povinho que disputava um lugar na fanfarra ou no balcão da lanchonete. Era difícil vê-lo, mas  ficou. Luzia não. Apagou feito uma estrela na manhã que raiava. Mas não brilhou na noite seguinte nem nas  outras. Ninguém teve notícias. Nunca mais tive notícias. Carregou seu mistério e sua tristeza e me deixou  aquela foto 3 por 4  de nossos  dias  de  sala  de  aula. Triste.  

FACE A FACE 

E se aparecer aquela menina que me deu um “tóin” no bailinho, e me pedir a amizade? E se ela mudou prá melhor e estiver só e “cheia de amor prá dar”? E se a minha ex namoradinha de infância tiver se convertido e quiser me fazer a cabeça? E se aquele babaca do ginásio estiver rico e surpreendentemente generoso? E se minha amigona da adolescência, que tinha uma irmã “dadeira”, reaparecer com roupinha “ jovem” aos 60 anos ? E se o cantor chato, de quem falei barbaridades surgir me pedindo um “help” ? E se aquela menininha lindinha por quem arrastei um bonde reaparecer com todas as cicatrizes do tempo no rosto? E uma carência sem limites. E se aquele racista que me enfiou facas pelas costas vier me estender a mão? E se aquela menina que me fez passar a noite inteira chorando mandar uma foto das filhas ? Como faço para fugir do passado se ele aparece querendo me ver ?

FLIP

Tenho pavor da FLIP .Talvez por ser um  iletrado. Sei lá... É tudo isso que  falam ? Tem sarau ? Oh  Não ! Tenho  trauma de sarau . Deve ser isso.  

CLAUDIA e  FLORINDA

Cada vez que tenho de procurar serviço público me  preparo. Encho os bolsos de  pedras e lá vou eu, cheio  de armas para deflagrar  uma guerra  doméstica.

Fui buscar remédios  para uma filha e confirmar exame para outra no postinho da Vila Gumercindo cá perto de casa. Ao buscar os remédios a atendente, Florinda, não só me aclarou dúvidas, me corrigiu a receita e ofereceu alternativas. Pasmo, agradeci  umas quinze  vezes  a japinha  que timidamente  me sorriu.  Como fazem os orientais educados.

Subi as escadas e fui marcar o exame.  Na sala 5 a atendente  Claudia, me entregou ficha e pediu que aguardasse pela chamada ( ela batia um papo animado com uma senhora). Esperei  quinze minutos, trinta, e ao virar o jogo, aos quarenta e cinco minutos já estava botando fogo pelas ventas. Me  acalmei revirando umas revistas. A senhorinha se foi  e Claudia me chamou. Disse  que a senhorinha aquela tinha uma enorme  hérnia, que precisava de um  atendimento  especial em grande hospital, que ela  estava morrendo de  medo, que depois de um  ano,  tinham conseguido  vaga  para operar,  que ela, a senhorinha estava  sempre sozinha e que a família pouco se  ligava. Que ela precisava conversar um pouco. Foi o que fizeram. Pausa. Morri de vergonha. 

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